quarta-feira, 18 de março de 2015

Logo depois...


Eu segui em frente caminhando a passos lentos numa noite tenebrosa de chuva, deixei o carro por lá mesmo, na estrada principal perto do acampamento indígena. Eu era um zumbi caminhando pela estrada. Os carros passavam e piscavam os faróis, a chuva caía de fininho me deixando com um frio danado e sem forças para andar o tanto que precisava. Devia haver um posto de gasolina, alguma cidade pequena, um restaurante. Encontrei uma estrada.

Desci ela e em pouco tempo estava na parada de ônibus para a cidade. Entrei e peguei um assento, a chuva era interminável. Enquanto o veículo rodava na estrada eu via as pessoas se molhando, na rua, pela janela. Até que vi a figura do monstro devorador de gente e de almas. Era nas nuvens, acima dos montes verdes que enfeitavam a estrada até a cidade grande.

Aquilo realmente existia. Então eu era o resultado de uma digestão demoníaca, saindo como alma das entranhas de um dos monstros mais assustadores que já presenciei. Eu pequei, e muito para ir a um lugar daqueles. Só que nesse dia eu vi que o lugar onde as almas penavam era perto de casa. Cem quilômetros. De carro, ou de ônibus. Mas as almas iam para longe, no céu. Lá em cima, impossível de ver. E voltavam até encontrar alguém escolhido de alguma forma, a qualquer hora.

E se todos nós fôssemos como eu mesmo, e aquelas almas saindo daquele demônio no meio de uma casa de pedra numa floresta quase intacta pelo homem, no meio de umas montanhas famosas na região, tendo inclusive acampamentos nas beiradas das montanhas e cachoeiras prontas para qualquer um entrar e curtir. Que bagunça se aquele monstro fosse atrás dos visitantes da Serra do Cipó. A sorte era que o danado do glutão ganhava as almas facilmente nos dias de hoje, mas era lerdo, não se movia, ficava ali naquela casa, caverna, eternamente.

Eu pensei que poderia levar uma expedição para ir até lá matar o monstro, até fiz isso, mas não convém falar agora, que escrevo estas palavras, escondido em minha casa, na esperança de que alguém leia e se salve de tamanha monstruosidade que libertei aqui, perto de meu bairro, minha casa, em minha cidade. O maior destruidor de todos os demônios, caminhando pelas montanhas da serra, descendo, indo até a cidade pequena e destruindo tudo, criando uma legião de almas e zumbis, que por segundos se sustentavam.

Mas por enquanto estou aqui, contando para vocês uma parte importante: o início.
Cheguei em minha casa ainda sob o efeito do chá. Tudo girava, rodopiava. Eu sentei no sofá esperando melhorar e vomitei no chão da sala de estar, no tapete. Deitei, passei a mão  em minha testa, estava suando frio, tremia. Minha pressão caíra e estava quase dormindo, quando uma pessoa tocou a campainha de minha porta, naquela hora, de madrugada.

- Olá, queria falar com o senhor.

- Ora, quem é você a essa hora.

- Lembra da sua estada na escola de artes marciais?

-Lembro, a dez anos atrás, nem lembro qual faixa eu era. Era bom, até...

Pois então, nós vamos fazer uma reunião, o professor Estevão, vai.


Continua...

Nenhum comentário: